Nota de abertura
CEEP
  projecto Museu do Vidro
   

Por ocasião das comemorações do 250º aniversário da indústria vidreira da Marinha Grande, propostas pela Câmara Municipal deste concelho, apresentámos, na qualidade de responsável pelo projecto do Museu, um programa de iniciativas, em que se destacava a abertura do Museu ao público.

As comemorações de data tão singular sugeriam um bom contexto para a tão desejada chegada do Museu[1], que deveria porém ser precedida de reflexão e debate sobre a sua vocação e a sua orientação enquanto espaço cultural e entidade museológica.

Assim, propusemos a realização de um ciclo de encontros de carácter interdisciplinar. De entre os vários seminários propostos, apenas O Vidro nas Ciências Sociais se realizou no espaço do Museu e cumpriu os objectivos iniciais, tendo sido os restantes promovidos de uma outra forma, embora no âmbito das comemorações, e desligados do Museu (O seminário Tradição e Actualidade do Movimento Operário Vidreiro não se realizou).

O Vidro nas Ciências Sociais realizou-se em Novembro de 1998 e teve a preciosa colaboração científica do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa, em particular da antropóloga Emília Margarida Marques, a quem muito agradeço, assim como a todos os participantes que corresponderam ao nosso convite, fazendo do encontro um êxito.

O Museu seria inaugurado a 13 de Dezembro de 1998 pelo Presidente da República, tendo contado com uma apreciável adesão da comunidade local.

Apesar dos obstáculos e problemas entretanto surgidos no pós-inauguração, creio que as bases foram lançadas. O Museu do Vidro, embora precariamente, abriu as portas e é um projecto. É minha esperança, e de todos que comigo colaboraram de forma profissional, que este projecto não se veja reduzido a mais uma iniciativa efémera, dependente dos curtos ciclos de afirmação e renovação políticas, ou esvaziado do seu genuíno sentido, e que possa consolidar-se com a dignidade e o profissionalismo que tentei imprimir-lhe desde o primeiro minuto.

O museu deverá por isso assegurar as funções museológicas vitais, científicas e técnicas: a investigação, a recolha, a conservação, o inventário e registo, a divulgação, a acção cultural e educativa.) E estas só poderão desenvolver-se se a vocação e orientação do museu forem bem definidas.

Assumir a designação “museu do vidro” e cingir-se à exibição de uma colecção, pouco representativa e mal estruturada, sem que sejam assegurados os meios para o exercício das funções vitais, não é mais que dar por acabado um esboço visivelmente incompleto e que, a consolidar-se na sua incipiência, jamais logrará ser uma referência no universo das intervenções museológicas nesta área patrimonial[2].

Em defesa do projecto, durante o meu exercício, foi-se avançando com medidas simples de “garantia” da sua inserção e continuidade, como a associação ao ICOM, a implantação do programa de inventário Matriz (do IPM), a tentativa de reclassificação pelo IPPAR do património industrial da antiga FEIS e da classificação de uma outra fábrica vidreira (Angolana)[3] ou ainda a candidatura ao prémio Museu Europeu do Ano 2000 (que deixei em preparação).

Agradeço a todos os colaboradores, amigos e cidadãos marinhenses que com os seus prestimosos contributos tornaram irreversível o nascimento deste museu. A alma deste projecto deve-lhes muito.



[1] O desejo de criação deste museu é muito antigo na comunidade, por muitos visto como um bastião da memória e da identidade da comunidade vidreira, sendo também um reconhecimento justo da sua saga.

[2] Refira-se o nascimento de outros museus do vidro, ligados a empresas: Museu Santos Barosa da Fabricação do Vidro (Marinha Grande), Museu do Centro Vidreiro do Norte (Oliveira de Azémeis), Museu da Atlantis (Alcobaça), e a existência de outros projectos, como o Museu da Fábrica Manuel Pereira Roldão.

[3] O processo de classificação deu entrada no IPPAR há cerca de dez anos, por iniciativa da APAI, e só este ano (1998) o IPPAR reabriu o processo, tendo-se deslocado à Marinha Grande uma técnica superior para fazer uma avaliação do imóvel (Dra. Deolinda Folgado). Esta visita, tal como o nosso relatório, mereceram uma péssima recepção na Câmara Municipal, a qual continua por definir que projectos tem para aquele espaço. Sabe-se que o industrial que detém a maior parte das quotas da antiga empresa, projecta para o local a construção de prédios de apartamentos. No PDM, apenas se refere “património”.

 

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